Domingo, 27 de Janeiro de 2008

Entrevista na SOLAMI...

Na passada 5ª feira, dia 24, o nosso grupo deslocou-se até Casal de Cambra a fim de realizar a entrevista com a presidente da SOLAMI, Teresa Elias.

Esta entrevista foi muito proveitosa, pois apesar de responder às perguntas efectuadas por nós, a DRª. Teresa Elias também colaborou para o nosso projecto, dando-nos ideias para desenvolver e outros assuntos para pensar.

 

Parece Um Ghetto: De que maneira é que esta instituição, sendo uma instituição de apoio social, apoia a população?

DRª Teresa Elias: Esta é uma instituição privada, que, como qualquer outra, apoia mediante os apoios que as pessoas têm: os mais necessitados pagam menos, os menos necessitados pagam mais. Esta é uma das formas que a instituição tem de ajudar. Claro que como estamos inseridos num centro comunitário, não viramos as costas a quem nos vem pedir ajuda, ou seja a toda a comunidade, quer sejam novos ou velhos. Nós servimos refeições, lavamos roupa, isto tudo a custo zero. São serviços que prestamos à comunidade sem sermos auxiliados por ninguém: nem pela autarquia, nem pelo Estado. Por isso, temos que gerir as nossas finanças de acordo com as comparticipações do Estado, do Ministério da Solidariedade Social, que dá por cada utente, a todos, quer paguem muito ou paguem pouco, dá o mesmo, a comparticipação é sempre a mesma, e também dá a comparticipação das famílias, conforme os rendimentos do agregado familiar, e nós é que temos que gerir, para depois dar apoio a quem nos pede ajuda.

 

Parece Um Ghetto: Qual a sua opinião sobre o bairro social?

DRª Teresa Elias: Este é um bairro camarário social porque veio desde um projecto de realojamento. Como estamos inseridos mesmo aqui no meio, nós aqui não temos nada a dizer contra, muito pelo contrário. Vocês já repararam que as paredes do nosso edifício estão limpas, nunca tivemos um vidro partido e estamos aqui na instituição desde 2001; aqui temos crianças, principalmente do bairro camarário. Chamo-lhe bairro camarário porque foi a câmara de Sintra que o fez e que realojou as pessoas que viviam em barracas.

 

Parece Um Ghetto: Há alguma divisão no bairro?

DRª Teresa Elias: Não, neste bairro não, eu explico-vos: este terreno todo onde estão estes edifícios grandes e altos, pertencem a uma cooperativa desde 1989; é uma cooperativa que as pessoas formam e comparticipam mensalmente, para depois serem construídas habitações e as pessoas têm logo um andar. Ora, essa cooperativa, em 1991 faliu e dois ou três prédios construídos já estavam vendidos e ficaram; os que estavam por acabar e os terrenos que também pertenciam à cooperativa ficaram devolutos; o que aconteceu foi que a Câmara de Sintra tomou conta desses terrenos e aproveitou aquilo que já estava feito (projectos) para construir o resto dos edifícios e, claro, que aproveitou esses edifícios para realojar. Por isso é que há dois tipos de edifícios e contratos, uns são habitados com rendas sociais, os que são da organização camáraria e os outros são da organização particular.

 

Parece um ghetto: Qual a sua opinião sobre os principais problemas e possíveis soluções para o bairro?

DRª Teresa Elias: Eu vou fazer um perentesis. Eu acho que o problema, principalmente quando se fala em Casal de Cambra, não é só o bairro camarário, só porque tem mais necessidades financeiras, a nível cultural; o problema é que por este Casal de Cambra fora, em casas e em vivendas particulares, há muitos anexos por trás e pelos lados que estão habitados por pessoas mais necessitadas que estas e, enquanto estas estão a pagar às vezes 7.50€ ou 15€ , outros desgraçados estão a pagar 250€ ou 300€ e às vezes sem condições; enquanto estes prédios têm muitas condições, eles é que estragam tudo e partem; portanto, aquilo que eu, se houvesse possibilidade, gostava houvesse em toda a freguesia de Casal de Cambra e em muitas freguesias como a nossa, haver habitações camarárias, serviços públicos e sociais; eventualmente aquilo que há e não deveria existir é que há pessoas que estão a chorar, que vêm dos PALOP, está bem que eles também vivem às 4 e 5 famílias no mesmo sítio, portanto isto não deveria acontecer; aqui, na urbanização camarária, o problema que existe é que as pessoas, por pagarem tão pouco, não levam aquilo como sendo deles e não dão valor. Muitas vezes há prédios com 10 andares que têm elevadores estragados, normalmente um bloco é sempre o mais estragado e pronto, a câmara também, muitas vezes, os prédios estão a necessitar de obras por dentro, também não têm dinheiro para repor e construir. Eu acho que o maior dos problemas aqui neste bairro é o não haver uma fiscalização e fazer uma observação. Não sei se vocês sabem, mas há aqui uma observação da câmara, num andar, chamam-lhe o observatório camarário de Casal de Cambra, que tem psicólogos para acompanhar: são 2 ou 3 técnicos que poderão acompanhar essas famílias. Esse observatório centrasse quase só nos habitantes do bairro camarário, apesar de também darem um certo apoio a pessoas da freguesia que vão solicitar ajuda, porque há muita população que necessita de apoio social porque ganham pouco ou porque são mães solteiras ou ficam sem os companheiros e já não têm ajuda. Eu digo isto porque é o que acontece com os nossos utentes.

 

Parece um ghetto: Qual a sua opinião sobre os bairros sociais, se acha que são bons, se acha que são maus ou se se tem de encontrar outras maneiras de resolver os problemas. Tendo em conta a sua resposta parece-nos que está de acordo com os bairros sociais.

DRª Teresa Elias: Sim, estou de acordo com os bairros sociais. No inicio eram cerca de 200 familias que vieram viver para aqui em 1995, e em 1999 cerca de 300 familias foram realojadas, ora se vocês colocarem nessas 300 famílias uma média de 3 / 4 pessoas por agregado familiar, multipliquem isso e vejam as pessoas que deixaram de viver numa barraca e passaram a ter uma casa. Se elas não sabem considerar isso e ter reconhecimento, realmente aí é que vão ter de intervir as técnicas e nós próprios para que eles considerem que tiveram uma casa, com uma renda simbólica e deveriam considerar, de qualquer forma; tirando isso, estou plenamente de acordo, simplesmente que não as coloquem todas no mesmo sitio, espalhem-nos, e nunca deveriam ter feito prédios de 10 andares. Quando pessoas que vieram de piso térreo onde tinham a vizinha do lado que ficava com o filho, que vieram para prédios muito altos onde estão sozinhos;  foi muito difícil, em 1995 até 1999, gerir essas dificuldades; inclusive a SOLAMI, nessa altura, já estava constituída, e veio fornecer muita alimentação a certas famílias que não se conseguiram orientar porque estavam habituadas a ter na barraca ao lado a vizinha que dava uma sopinha ao filho e, portanto, ficaram completamente destabilizadas e não sabiam o que fazer à vida, e houve muita alimentação que viemos fornecer a algumas famílias.

 

Parece um ghetto: Que outros serviços é que a SOLAMI tem disponível para a população, para os jovens e idosos?

DRª Teresa Elias: Nós temos A.T.L. que é o normal do primeiro ciclo, que já temos desde 1998 e que, quando não estávamos neste edifício, alugávamos lojas e tínhamos um centro que chamávamos “clube de jovens”. Neste momento, esse clube de jovens transformou-se em clube de jovens diário, desde as 7.30 horas da manhã até às 20 horas da noite. Naquela altura, eles, os jovens, queriam lá ir e faziam as actividades, agora temos os pais que querem que os filhos estejam cá e frequentem as nossas actividades; claro que são actividades para crianças do 1º ciclo, mas ajudamos. Almoçam sempre cá e fazem os trabalhos de casa, não é nenhuma actividade de tempos livres, mas ajuda. Nas interrupções lectivas, quando já têm os testes todos feitos, temos actividades de saída no Verão e colónia de férias, e temos, ainda, que neste momento está em “stand-by”, um grande clube de jovens, que lhe chamavam as “Almas de Casal de Cambra” que organizavam muitos bailes aqui e festas aos sábados, mas era quase tudo aqui no bairro camarário. Desde 2001, quando isto abriu, nós chegámos a ter três festas por ano. Eram coisas engraçadas, porque eles estavam sempre ocupados, 3 meses antes já estavam a preparar a festa. Era uma maneira de os ocupar, mas depois uns foram para Inglaterra, outros para a Guiné e outros começaram a trabalhar.

 

Parece um Ghetto: Quais os mecanismos de integração social que a associação desenvolve?

DRª Teresa Elias: Nós não temos mecanismos de integração, nós temos mecanismos só através do instituto de reinserção social, mas neste momento temos uma equipa de 5 técnicos do gabinete social de inserção, conhecido por rendimento mínimo, e então esta equipa é que procura integrar as pessoas que estão a beneficiar deste rendimento, muitas delas já há muito tempo, porque não havia inspecção para ver se essas famílias ainda precisavam ou se os tinham indevidamente, que é o que acontece muitas vezes. Posso-vos dizer que, em Casal de Cambra, esta equipa tinha 170 famílias a beneficiarem do rendimento mínimo; neste momento houve um decréscimo e já só há cerca de 140 famílias, o que quer dizer que as outras famílias ou foram integradas, ou lhes foi tirado o subsídio, porque o que acontece muitas vezes é que há pessoas a receberem o subsídio indevidamente. Esta é uma mentalidade que temos de combater porque todos nós temos de saber que temos de respeitar o resto da população. A reintegração que se está a fazer neste momento é nas famílias do rendimento mínimo, além dos apoios dados às pessoas.

 

Parece um Ghetto: Tem algumas sugestões para o nosso projecto?

DRª Teresa Elias: As sugestões que eu vos posso dar é vocês tomarem conhecimento, ou seja, olhar o que está cá dentro e observar para retirarem daí alguma coisa importante. Eu posso-vos dizer, por exemplo, os nossos idosos: nós temos apoio domiciliário, centro de dia, e centro de convívio e umas das coisas que vocês podem abordar é que os idosos estão cada vez a ser mais idosos e cada vez a ser mais abandonados, e tem sido assim assustadoramente. Neste momento tem sido um “boom”. Vocês que estão na área social deviam olhar para os idosos, fazer uma chamada de atenção. Eu acho que isso era óptimo para vocês procurarem fazer. Nós aqui, no centro, temos um senhor que era sem abrigo e nós tiramo-lo da rua. Ele aqui dá-nos muita ajuda, faz pequenos arranjos, reparações e fica cá, dorme cá, e, portanto, paga com o trabalho a cama, mesa e roupa lavada.

 

Parece um Ghetto: Terminámos, muito obrigada pela disponibilidade e pela colaboração.

 

 

 

publicado por pareceumghetto às 12:03
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